Trabalho Escravo na Indústria da Carne


Em uma recente pesquisa realizada pelo projeto Escravo nem pensar!, sendo este apoiado pelo programa Repórter Brasil e algumas outras instituições tal como o Ministério do Trabalho, foi demonstrado que 31% dos trabalhadores libertados por trabalho escravo , entre 1995 e 2016, vinham da pecuária.

A relação que se faz entre esse dado e a posição que a pecuária ocupa em nosso país é simples. Esta é uma das principais atividades econômicas do Brasil, representando mais da metade de nosso contexto econômico, em 20,4% de nossos munícipios, segundo o IBGE, podendo-se afirmar que é um dos setores que mais geram renda e empregos. Além disso, é importante ressaltar que o Brasil se consolidou como o segundo maior produtor mundial de carne bovina e o maior exportador do mundo.

Todo esse poder e força acabam refletindo diretamente na nossa sociedade, pois “a carne é sustentada como um item potente e insubstituível da alimentação” segundo Adams (2012, p.68, apud CARVALHO, B.D, SAMPAIO, B. D., p.5). Tal concepção é reverberada por certos atores sociais e até mesmo o governo e variados setores empresariais, que defendem e alastram a ideia de que o consumo da carne é essencial e intrínseco ao homem, conferindo a este um aspecto cultural enraizado em nossa sociedade, o que atribui ainda mais prestígio à indústria pecuária.

No entanto, é importante falar sobre algumas particularidades que, geralmente, ficam de fora das maiores discussões acerca do tema, como: a brutal exploração e violação dos direitos humanos, pois é por intermédio do consumo de carne que inúmeros trabalhadores são escravizados, como fica explícito pela fala de Vanice Cestari, advogada:

“É pela defesa irrefletida e apego ao consumo da carne que se (re)produz uma economia desumana, brutalizada, mortífera e antiética que dizima vidas animais e humanas de modo conjunto, no caminho da destruição da biodiversidade e da própria subsistência da vida no planeta.” ( Vanice Cestari, advogada e colunista do carta capital” ( CESTARI, 2017)

Diante disso, é preciso falar sobre a rotina dos trabalhadores da indústria de abate de animais que abrange inúmeros riscos devido ao manuseio de instrumentos cortantes, a pressão por altíssima produtividade e, muitas vezes, jornadas exaustivas em ambientes extremamente frios e insalubres.

Em uma relevante investigação produzida pela Repórter Brasil, intitulada Moendo Gente, ficou claro que os problemas dessa indústria existem e não são poucos. Essa investigação “relata problemas em 24 plantas frigoríficas pertencentes às três principais empresas que abastecem nossos supermercados e fazem do país o líder mundial na exportação de proteína animal: JBS, Marfrig e Brasil Foods.” Além disso, um documentário lançado também pela Repórter Brasil, no ano de 2011, enriquece o debate e serve como alerta ao mostrar a dura realidade dos trabalhadores em frigoríficos.

Estes ficam sujeitos a inúmeros danos físicos e psicológicos, pois segundo o Ministério da Previdência Social, funcionários de um frigorífico de bovinos têm três vezes mais chances de sofrer um traumatismo de cabeça ou de abdômen, que o empregado de qualquer outro segmento econômico. Ademais, o risco de uma pessoa de uma linha de desossa de frango desenvolver uma tendinite é 743% superior ao de qualquer outro trabalhador, devido aos mais de 120 movimentos diferentes em apenas 60 segundos, enquanto o recomendável está na faixa de 25 a 33 movimentos por minuto.

Além disso, é de suma importância falar que tais lesões, causadas por esforços repetitivos, são facilitadas, segundo especialistas da saúde do trabalho, pela exposição a baixas temperaturas, que é a realidade contínua desses trabalhadores. Além disso, o trabalho ininterrupto com facas, serras e outras ferramentas afiadas, aliada a jornada extenuante que se estende, muitas vezes, por mais de 15h, eleva o risco de acidentes da atividade.

Os danos psicológicos também se fazem presentes, já que muitos acabam desenvolvendo transtorno de humor e depressão, sendo que, no abate de aves a chance é 3,41 maior. No documentário, há também algumas reclamações quanto a restrições de algumas liberdades, como o fato de terem que pedir permissão para ir ao banheiro e conversas com os colegas de trabalho, que muitas vezes são reprimidas.

Uma frase do desembargador do Tribunal Regional do Trabalho da 3° região explicita bem a situação, pois “O trabalho é o local em que o empregado vai encontrar a vida, não é o local para encontrar a morte, doenças e mutilações. E isso no Brasil, infelizmente, continua sendo uma questão séria”. Há inúmeros afastamentos, pessoas incapacitadas para trabalharem novamente devido às lesões causadas por essa indústria e apesar da quantia bastante considerável de processos na justiça contra as empresas frigoríficas, as indenizações são extremamente baixas e não cumprem seu objetivo de reparação.

O problema urge uma solução. A utópica frase, que apesar de soar clichê na lógica capitalista de produção, é a conscientização e mobilização por parte da sociedade, empresas e Estado. É imprescindível que a legislação trabalhista coloque realmente em prática várias medidas que tem o poder de proteger e aumentar a qualidade de vida desses trabalhadores.

É necessário que o consumo de carne não seja visto apenas como um ato isolado necessário à alimentação, mas sim como parte de um ciclo vicioso, como um sistema que degrada a integridade física e moral de inúmeros trabalhadores e isso só acontece porque há demanda.

Referências bibliográficas

BRASIL, Repórter. "Moendo Gente" mostra as condições de trabalho nos frigoríficos do Brasil. Disponível em: <http://reporterbrasil.org.br/2012/09/quot-moendo-gente-quot-mostra-as-condicoes-de-trabalho-nos-frigorificos-do-brasil/>. Acesso em: 22 maio 2018.

CARNEOSSO. Um retrato do trabalho nos frigoríficos brasileiros. Disponível em: <http://carneosso.reporterbrasil.org.br/o-filme/index.html>. Acesso em: 22 maio 2018.

CESTARI, Vanice. Para além da Carne Fraca: exploração animal e escravidão humana na indústria da carne. Disponível em: <http://justificando.cartacapital.com.br/2017/03/29/para-alem-da-carne-fraca-exploracao-animal-e-escravidao-humana-na-industria-da-carne/>. Acesso em: 22 maio 2018.

BRASIL, Repórter. Moendo Gente: As más condições de trabalho nas maiores indústrias brasileiras de carne. Disponível em: <http://moendogente.org.br/#lat=-22.59316889365394&lng=-49.881663489746245&zoom=5>. Acesso em: 22 maio 2018.

PENSAR, Escravo Nem. O trabalho escravo no Brasil. Disponível em: <http://escravonempensar.org.br/o-trabalho-escravo-no-brasil/>. Acesso em: 23 maio 2018.

CAMALEÃO, Douglas. Direitos animais (não-humanos) e direitos humanos, onde não tem um, não tem outro! Disponível em: <https://www.portalveganismo.com.br/ativismo/a-exploracao-humana-nos-principais-frigorificos-brasileiros/>. Acesso em: 28 maio 2018.

SAMPAIO, Dayanne Batista; CARVALHO, Denis Barros de. Consumo de carnes e cidadania: Uma análise a partir da “Segunda sem Carne” em Teresina-PI. Disponível em: <http://www.ojs.ufpi.br/index.php/equador/article/viewFile/5024/3024>. Acesso em: 24 maio 2018.

CARNE e Osso documentário completo. S.i: Repórter Brasil, 2011. P&B. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=887vSqI35i8>. Acesso em: 20 maio 2018.

Saiba mais sobre o assunto

Clique aqui para conhecer a história de alguns dos pescadores resgatados! 

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