Relatório de ONG dinamarquesa revela escravidão e trabalho infantil na produção de café no Brasil

O Brasil é o maior produtor e exportador mundial de café e a existência de graves problemas trabalhistas na produção do grão no país é o foco de um relatório que acaba de ser lançado pela ONG dinamarquesa Danwatch. A investigação chama a atenção para flagrantes de casos de trabalho em condições análogas à escravidão, trabalho infantil e uso de agrotóxicos perigosos em lavouras brasileiras.


A ONG viajou para Minas Gerais, estado em que metade do café do Brasil é cultivado, visitou plantações e entrevistou trabalhadores, sindicatos, especialistas e autoridades locais. A Danwatch acompanhou a polícia e o Ministério do Trabalho e Emprego do Brasil em uma inspeção na qual dezessete homens, mulheres e crianças - vítimas de tráfico humano - foram encontrados em uma plantação de café brasileiro e libertados de condições análogas à escravidão.


Segundo a Danwatch, as más condições trabalhistas afetam a cadeia de fornecedores das duas maiores empresas globais de café – a Nestlé, sediada na Suíça, e a multinacional holandesa Jacobs Douwe Egberts - que, juntas, controlam aproximadamente 40% das vendas mundiais do produto.


De acordo com relatório da ONG, quando procuradas, ambas as empresas admitiram que grãos de café oriundos de plantações onde foram identificadas condições análogas à escravidão podem ter terminado em seus produtos. A Nestlé também admitiu ter comprado café de duas plantações onde as autoridades brasileiras resgataram trabalhadores da escravidão. Os flagrantes de trabalho escravo ocorreram em julho do ano passado. "Estamos determinados a enfrentar este complexo problema em estreita colaboração com os nossos fornecedores, com os quais entramos em contato", disse a multinacional suíça em uma declaração por escrito à organização dinamarquesa. Já a Jacobs Douwe Egberts afirmou ter procurado todos os seus fornecedores para pedir-lhes explicações sobre as medidas tomadas visando garantir que eles não compram café de plantações que empregam esse tipo de mão de obra.


O relatório também cita que o emprego de mão de obra com menos de 16 anos, na colheita do café, ainda é uma realidade no Brasil. Na fiscalização trabalhista acompanhada pela Danwatch em Minas Gerais, auditores do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) flagraram dois jovens, de 14 e 15 anos, exercendo a atividade. Tinham migrado da Bahia para a colheita e estavam alojados em condições precárias; por conta do trabalho, um deles relatou ter perdido um mês de aulas.

Libertação de dois adolescentes em fazenda no sul de Minas Gerais. Foto: Lilo Clareto

Outro problema abordado é o uso de agrotóxicos perigosos nas fazendas brasileiras de café, incluindo substâncias consideradas extremamente tóxicas e que já foram banidas pela União Europeia. A investigação da Danwatch traz entrevistas com trabalhadores que rotineiramente aplicaram tais produtos em cafezais e relataram problemas de saúde e sintomas que, segundo pesquisadores ouvidos, podem estar relacionados com a exposição tais produtos.


Segundo a organização dinamarquesa, alguns dos produtos usados em lavoras de café brasileiras são tão tóxicos que o mero contato com a pele pode levar ao óbito. "Mesmo assim, muitos trabalhadores pulverizam os pés de café com agrotóxicos sem usar os equipamentos de proteção exigidos pela lei", diz o relatório.


Em nota encaminhada à Repórter Brasil, a Articulação dos Empregados Rurais do Estado de Minas Gerais (Adere-MG) afirmou que o relatório da Danwatch "mostra as vergonhosas e precárias relações de trabalho na cafeicultura mineira, cafeicultura que não respeita os direitos de seus empregados, a legislação trabalhista e que tem ainda as suas senzalas 'modernas', mascaradas de alojamento". Ainda de acordo com a articulação, se todas as denúncias fossem fiscalizadas corretamente e em tempo hábil, a quantidade de trabalhadores resgatados em fazendas da região seria muito maior. (Leia AQUI a íntegra da nota da articulação)


A Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado de Minas Gerais (Fetaemg) também se manifestou sobre o relatório. A entidade afirma que os trabalhadores enfrentam grandes problemas como informalidade, más condições de trabalho, transporte irregular e aliciamento por gatos – intermediadores na contratação de mão de obra que iludem os trabalhadores com a promessa de bons salários e boas condições de trabalho. "Temos avançado bastante na melhoria das condições de trabalho no campo, mas ainda encontramos trabalho análogo à escravidão. O problema é que o Ministério do Trabalho tem uma deficiência de profissionais para fiscalizar as propriedades", ressalta Vilson Luiz da Silva, presidente da Fetemg.


Organizações ligadas aos produtores rurais e às cooperativas de café, por sua vez, divulgaram comunicado conjunto repudiando o estudo da Danwatch, que foi qualificado como sensacionalista pelo Conselho Nacional do Café (CNC) e pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). "O relatório 'Café Amargo' possui forte viés ideológico e demonstra grande ignorância sobre a realidade produtiva do Brasil, bem como do aparato institucional do setor café e do arcabouço legal que rege as relações trabalhistas e o registro, a produção, o comércio e o uso de defensivos agrícola”, diz o comunicado. Sobre os flagrantes de mão de obra escrava na cafeicultura brasileira, CNC e CNA alegam que o critério de trabalho escravo no Brasil é muito subjetivo: "O prejulgamento por parte da ONG [Danwatch] é uma grande injustiça, até porque a fiscalização não é imparcial ao enquadrar o labor como análogo ao de escravo. Pelo contrário, possui forte viés ideológico e muitas vezes se equivoca".


A UTZ, uma das principais certificadoras globais de fazendas de café, também se manifestou por meio de nota, afirmando que o relatório da organização dinamarquesa chama a atenção para os graves problemas encontrados no café brasileiro em relação às condições de trabalho, problemas estes que precisam de ser resolvidos a fim de criar uma cadeia de fornecimento sustentável.


Para acessar a íntegra do relatório, lançado no último dia 03, clique AQUI.

Fonte: http://www.dmtemdebate.com.br/cafe-amargo/; http://reporterbrasil.org.br/2016/03/cafe-amargo-2/

Saiba mais sobre o assunto

Clique aqui para conhecer a história de alguns dos pescadores resgatados! 

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